Praga da dança

Era um dia quente de junho de 1374 na cidade medieval de Aix-Ia-Chapelle, atual Aachen na Alemanha, quando a dança começou. Era a festa sagrada de São João Batista, que coincide com a celebração pagã do Solstício de Verão. Tradicionalmente, o dia de São João era um dia de descanso e oração para a tranquila cidade de Aachen.

Começou com um pequeno grupo, talvez uma dúzia de pessoas. De repente, começaram a sacudir seus membros. Alguns gritaram ou uivaram. Outros se mexiam como se estivessem em transeMais e mais pessoas da cidade se juntaram à dança errática. Servos, nobres, homens, mulheres, velhos e jovens – todos participaram da “praga da dança” de Aachen - Gismodo
Dança da morte. Ilustração por Angelica Alzona/Gizmodo


Como Justus Friedrich Karl Hecker descreve em seu livro, A Peste Negra e a Mania da Dança, as vítimas se davam as mãos formando gigantescos círculos ondulantes, girando e girando em círculos cada vez mais rápidos. Eles gritavam, chamando a Deus ou Satanás ou ambos. Seus movimentos eram aleatórios, até epiléticos. Por horas e horas, as pessoas da cidade dançavam sem descanso, comida ou água.

Uma das teorias predominantes sobre as pragas da dança tem a ver com o tempo delasQuando a praga da dança atingiu Aachen, a devastação da Peste Negra ainda estava muito fresca na mente das pessoas. Durante o século 14, estima-se que a Peste Negra tenha matado algo entre 25% e 50% da população da Europa. A bactéria Yersinia pestis causou as doenças associadas à peste negra. A peste septicêmica, a peste pulmonar e mais comumente a peste bubônica resultaram da exposição à Y. pestis. Além da morte, os sintomas das pragas incluíam desde pele roxa a vomitar sangue e febre, entre outros sintomas muito mais grotescos.

Como você pode imaginar, as pessoas que viveram o horror da peste negra estavam questionando sua realidade e passando por extremo sofrimento psicológico. A morte os cercou. Famílias inteiras foram dizimadas da noite para o dia. Os mortos ladeavam as ruas e eram enterrados sem cerimônia em valas comuns. De fato, houve muitas reações extremas à peste negra.

O escritor e cronista italiano Giovanni Boccaccio, que viveu a peste negra enquanto ela passava por Florença, na Itália, escreve sobre essas reações entre seus vizinhosAlguns optaram por “viver com moderação e evitar todo excesso… se reunindo e se afastando de todos os outros, formando comunidades em casas onde não havia doentes”. Em outras palavras, eles se afastaram dos outros em suas casas em uma versão medieval de isolamento social. Muitos recorreram a intensa oração e jejum, em um esforço para apaziguar Deus. Mas Boccaccio também escreve sobre pessoas que fizeram o oposto, pessoas que “bebiam livremente, frequentavam locais públicos e desfrutavam de canções e deleites, se preocupando em não deixar de satisfazer o próprio apetite e rir e zombar de todos os eventos”.
Miniatura de Pierart dou Tielt mostrando pessoas enterrando vítimas da Peste Negra.Imagem: Commons
Miniatura de Pierart dou Tielt mostrando pessoas enterrando vítimas da Peste Negra. Imagem: Commons

Embora essas duas reações pareçam estar em extremos opostos do espectro, ambas podem estar ligadas ao fervor religioso da época, que a Peste Negra apenas exasperou. A religião costuma se sair muito bem em tempos difíceis. Essa onda de religiosidade levou algumas pessoas a culpar Satanás e, por extensão, à adoração satânica pela Peste Negra. Houve um aumento de anti-semitismo e acusações de bruxaria durante o período, enquanto as pessoas procuravam culpar os outros pela devastação da praga.

Alguns estudiosos acreditam que esse mesmo zelo religioso desencadeou as pragas da dança, incluindo a dança de uma semana de 1374 em Aachen. Os estudiosos Kevin Hetherington e Rolland Munro, no livro Ideas of Differencereferem-se ao “estresse compartilhado” da Peste Negra e das guerras da época, e teorizam que foi esse estresse comunitário que causou as pragas da dança.

O ossuário do cemitério dos santos inocentes de Paris, com um dos primeiros afrescos da Dança da Morte, 1424. Imagem: Commons via Atlas Obscura
O ossuário do cemitério dos santos inocentes de Paris, com um dos primeiros afrescos da Dança da Morte, 1424. Imagem: Commons via Atlas Obscura
Após a devastação da Peste Negra, a arte e a literatura alegórica também adotaram o tema da dança. Já em 1424, encontramos representações artísticas da Danse Macabre, também conhecido como a Dança da Morte. Na Danse Macabre, a Morte, representada como um esqueleto dançante, leva pessoas de todas as esferas da vida em uma dança final e fatal para o túmulo. Apesar da riqueza, poder ou falta de ambos, todos vão participar da Danse Macabre.

A Peste Negra também influenciou outra forma de dança a aumentar sua popularidade: as danças ritualísticas dos flagelantes. Como o historiador medieval David Herlihy explica em seu livro, A Peste Negra e a Transformação do Ocidente, durante a Peste Negra, grupos de pessoas marcham até a cidade atrás de um líder, quando chegavam à praça central da cidade, seu líder pregava sobre arrependimento a quem quisesse ouvir. Os manifestantes cantavam hinos enquanto realizavam um “ritual de dança”, no auge da performance, eles faziam uma pose representando alguma forma de pecado e depois se despiam até a cintura e se flagelavam com chicotes em arrependimento, no meio da cidade, na frente de um monte de estranhos e marchavam para a próxima cidade para repetir a apresentação.

As pragas de dança, a Danse Macabre, e os flagelantes foram todas reações à agitação maciça causada pela Peste Negra e após ela, muitos dos sistemas em que a Europa medieval se baseava foram total e completamente alterados.

A reestruturação maciça da sociedade que se seguiu à peste negra tornou-se mais conhecida como o Renascimento. Até hoje, o Renascimento é visto como o ponto de virada entre o “passado” e o começo do nosso mundo moderno. Ainda não sabemos muito sobre as pragas da dança, o Danse Macabre e os flagelantes. Em última análise, não sabemos ao certo por que o povo de Aachen dançou em 1374. Não temos muita certeza de como as imagens do Danse Macabre se espalharam como um incêndio pela Europa no século 15.
Ilustração de Henricus Hondius the Younger (1573-1610), baseada em ilustrações feitas por Brueglhel the Elderd em 1564, de três mulheres sendo acometidas pela Praga da Dança, enquanto cada uma delas está sendo socorrida por dois homens, os quais tentam acalmá-las. Elas tinham sido testemunhadas por Brueglhel, em 1564. 
Tudo começou em julho de 1518, quando Frau Troffea saiu às ruas de Estrasburgo e começou a dançar uma espécie de ´jive´. As pessoas em volta, de início, pensaram que ela estava feliz e queria expressar, com vigor, sua felicidade para todos. Com isso, o povo local começou a rir e aplaudir a dança de Troffea. Porém, todos começaram a perceber que tinha alguma coisa muito errada quando Troffea já tinha passado 6 dias inteiros dançando, sem parar! E o mais estranho não foi isso, mas, sim, o contágio de outras 34 pessoas dentro de uma semana com a mesma explosão de dança. Depois de um mês, eram 400, entre homens, mulheres e crianças! Saber Atualizado
No pico  da euforia, cerca de 15 pessoas estavam morrendo por dia, e foi nesse momento que as autoridades do governo começaram a ficar mais do que preocupadas e começaram a acreditar que aquilo era obra de um furioso santo, chamado Vitus, sobre a região. A massiva dança terminou como começou: do nada, as pessoas que não tinha morrido voltaram aos seus afazeres normais como se nada tivesse acontecido, com os sintomas da aflição gradualmente desaparecendo.
Mas antes de 1518, a Praga da Dança, como ficou conhecido o fenômeno, já tinha se manifestada em outras localidades da Europa. Mais precisamente, entre o século 11 e 16, vários surtos do tipo ocorreram. No Natal de 1021, 18 pessoas se reuniram em frente a uma igreja de uma cidade alemã, Köibigk, e começaram a dançar selvagemente. O padre dando a missa lá dentro parou e pediu para eles pararem com o ato, então ele condenou todos eles a dançarem por um ano inteiro, os 18 não conseguiram ganhar controle dos seus membros até o próximo Natal, segundo registros da época.
Depois desse incidente, esse tipo de evento deixou de ser percebidos até o ano de 1374, quando dezenas de cidades medievais, que seguiam o curso do Rio Rhine, se viram tomadas por centenas de pessoas em uma compulsão furiosa pela dança. Todos esses eventos possuem vários documentos históricos comprobatórios e foram descritos em inúmeras fontes e de diversas formas, como nas artes. Os registros históricos mais amplos e descritivos vêm de 1518.
Desde a época em que a Praga da Dança estourou na Europa, vários médicos, escritores, monges e padres estudaram o fenômeno e tentaram elucidar explicações para o mesmo. Essas explicações incluem possessão demoníaca, epilepsia, mordidas de tarântulas, envenenamento por fungos e adversidades sociais. Em décadas recentes, causas biológicas estavam sendo o foco, como o já citado envenenamento por fungos e até mesmo fatores epigenéticos. No caso dos fungos, o suspeito seria um do gênero Clavíceps, o qual produz uma substância psicoativa similar ao LSD e poderia estar envenenando as pessoas através de comida contaminada, especialmente o trigo (hipótese não se sustenta).
No caso de causas genéticas, as evidências são menos do que especulativas e uma outra explicação: doença psicogênica de massa (DPM),  caracterizada por uma rápida disseminação de sinais e sintomas de uma doença nos membros de um grupo coeso originados de um distúrbio no sistema nervoso que envolve excitação, perda ou alteração de função, mas onde as sensações físicas percebidas pelo indivíduo afetado exibidas inconscientemente não possuem correspondência com uma causa orgânica, a DPM é uma forma de histeria em massa que surge disfarçada de uma doença.
Bem, uma das primeiras pistas que temos para tentarmos resolver esse mistério é o fato de que a Praga da Dança possuía uma notável característica: dramática perda de auto-controle. Para dançar como condenados, gerando danos por todo o corpo e impedindo funções básicas de serem feitas, como comer, as pessoas com certeza estavam em um estado alterado de consciência. Mas para chegar em tal estado, precisamos de uma explicação, e essa pode estar firmada sobre três eixos principais: medo, depressão e crenças culturais. Para isso podemos citar três fatos que estavam associados durante os dois grandes fenômenos (1374 e 1518):

1. No mesmo ano em que a Praga da Dança atingiu várias regiões, uma das piores inundações do século atingiram a área. O rio Rhine teve seu nível elevado em mais de 11 metros, alagando as cidades em volta e causando enormes prejuízos;

2. Décadas antes de 1518, uma grande onda de fome, frio, alta dos preços dos alimentos e doenças diversas (como lepra e sífilis) atingiu com força a região de Estraburgo;

3. Essas duas datas estão inseridas em um intervalo de séculos onde a religião era parte íntima da sociedade, e onde a população como um todo realmente acreditava em fenômenos sobrenaturais, como possessão demoníaca e outras descrições religiosas literais.
A verdade é que esse estranho fenômeno é até hoje considerado um dos maiores mistérios de saúde pública sem resolução. Muitos especialistas, contudo, afirmam que é improvável que os episódios da Praga da Dança tenham sido causados por um ou outro fator específico, mas, sim, por vários fatores combinados com um pano de fundo de disposição cultural e engatilhado por circunstâncias sociais adversas.

Danze-se: TERRITÓRIOS CULTURAISFREVO, SIM, CARNAVAL!VAMOS VIRAR JAPONÊSSOUND OF HOUSE M. D.PKSNOOP DOGG LIONPUNK ROCK???ONE OF USOH MY GOD!LOGUN EDÉ“ELI, ELI, LAMÁ SABACTÂNI"ESSES ATEUS!!!QUERO VER VOCÊ FELIZ

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